Escrevo a partir de uma inquietação pessoal que me atravessou de forma profunda. Aqui não cabem introduções.
Tantas coisas me entristecem nessa situação: a ignorância travestida de “discernimento espiritual”. Ignorância no sentido literal da palavra mesmo — de ignorar, de não ouvir, de não querer saber ou dialogar, de apenas esbravejar conclusões acusatórias contra irmãos.
Muito já foi dito em termos de explicações. Mas a verdade é que, aparentemente, ninguém quer aprender. Só queremos nos “defender”.
E me defender precisamente do que já me feriu: se foi o legalismo ou o falso moralismo, vou defender a conversa com a cultura. Se foi a cultura, em alguma de suas manifestações, defendo o que chamaria de “espiritualidade”, mas que acaba sendo, sim, religiosidade.
Me parece um pouco óbvio o que defender, caso eu escolha travar essa batalha. Mas, aparentemente, não é não.
Eu creio que Deus criou todas as coisas. E viu que era bom.
Creio que a queda afetou todas as coisas.
E que Jesus reconciliou com o Pai todas as coisas, através do seu sangue.
Não ficou nada de fora.
O inimigo deturpa, rouba, corrompe — mas jamais cria.
Jesus restaura tudo. Tudo mesmo.
E talvez esse seja um ponto que tocou na ferida: Ele restaura ao propósito original, não a um projeto que eu considero melhor.
Eu sou a pessoa que sonha com Apocalipse 7:9. Na verdade, espera. Eu sei que vai acontecer.
E tenho certeza de que, naquele dia, cada povo vai se distinguir e vai oferecer sua glória ao Cordeiro — a porção de glória que Deus compartilhou e que será devolvida a Ele em adoração.
Por haver distinção, isso certamente incluirá línguas, cores, vestimentas e sons.
E acho impressionante que, diante de uma apresentação do Haka da Nova Zelândia, sejamos capazes de observar e dizer: “é cultura, é forte”, ver beleza e valor, mesmo sendo completamente distinto do que nos é comum — posso até achar assustador, mas é de fora, logo é lindo.
Mas quando olhamos para o que é daqui, não somos capazes. Afinal, tem tantos Brasis aqui dentro, não é mesmo?
Nossos instrumentos, vozes, ritmos, cores, roupas, adereços, palavras.
Vemos o mal em tudo. Até mesmo nos nomes dos pais de Jesus: Maria e José — que são os nomes mais comuns do Brasil, talvez justamente por serem os nomes dos pais de Jesus… inclusive.
Somos tão prontos para julgar, tão rápidos em colocar o único sapato que não deveríamos colocar (quem ouviu o sermão cantado pegou a referência).
E, não bastasse isso, gritamos “pelas ruas e pelos telhados do nosso tempo” — leia-se redes sociais — com vozes de alerta e condenação.
Somos incapazes de ver beleza na nossa cultura porque nos afastamos tanto dela, nos apegamos tanto às falas dos “descobridores” — de que “brasileiro é um povo burro, preguiçoso e ladrão” — que mantemos esse discurso em quase tudo o que julgamos.
A gente ri dos sotaques diferentes do nosso. Faz piadas (jocosas) de outros estados, como se o Brasil se limitasse a onde eu nasci, onde eu moro e, no máximo, onde eu passo férias.
Alguns ainda consideram que também faz parte apenas o que veem no jornal: lugares limitados à violência, sempre. Não enxergamos o país continental em que vivemos com a grandeza que só isso já confere.
Nossa maior riqueza é a diversidade. A criatividade de Deus.
A mistura que Ele fez aqui é o que Ele faz com todo aquele que crê em Cristo Jesus: não há judeu nem grego, escravo nem livre…
Não adianta reclamar uma suposta “pureza étnica” aqui, meu amado — como se isso existisse, como se misturas fossem necessariamente impuras.
Não somos santos. Nem melhores. Mas também não somos os piores, como tantos insistem em nos rotular.
Na Igreja, é histórico tratar o diferente como inimigo. Já foram o violão, a bateria, o grupo de louvor, um gênero musical, a parede preta.
As irmãs do coque (religiosas), os católicos (idólatras), os progressistas (desviados), os conservadores (falsos moralistas).
Enquanto isso, o céu continua se abrindo toda vez que um José, uma Maria e até um Enzo ou uma Valentina reconhecem o senhorio de Cristo, a redenção pelo Sangue do Cordeiro e a esperança da Eternidade — que já começou.
Enquanto isso, irmãos piedosos continuam escandalizando quem insiste em “avaliar” os convidados do Banquete, esquecendo a regra básica: convidado não convida — e muito menos desconvida.
O dono da festa mandou chamar.
Enquanto isso, o Senhor continua a se revelar.
Na igreja que você conhece, sim.
E naquela em que você nunca entraria também.
Na fala de um irmão fervoroso que não sabia ler, mas tinha a Palavra guardada no coração — mais até do que irmãos que só sabem usar versículo para arrotar na cara dos outros.
Enquanto a gente discute e perde tempo pensando “quem tá enganado e quem não tá” — jamais seria eu, digo, esquecendo que o inimigo enganou até anjos — tiramos os olhos dos campos, que estão brancos.
Tiramos os olhos das demandas urgentes dos nossos dias porque não temos resposta. Não estamos dispostos a ouvir, só a gritar mesmo — e a responder perguntas que ninguém fez.
E eu penso que o inimigo ri — eu sei que ele é real e astuto, jamais ignoraria isso no mundo caído em que vivemos — porque ele sabe que seu tempo é limitado, mas nos vê tão ocupados conosco mesmos que jamais repararíamos quantos Josés e Marias se afastaram da Redenção por não caberem em nossos moldes.
Atos 10 — pode parecer só mais um texto para você.
Ali, o Senhor abre a porta para os povos, deixando claro que a cultura não é um impedimento para estar com Ele. O Espírito se manifesta, e o próprio Deus diz: não declare impuro o que Eu declarei puro.
Minha oração é que eu jamais ouse tentar fechá-la ou dificultar a entrada de quem o Senhor convidou.
Que Ele tenha misericórdia de nós.